ASCENDENTES DOS TOUROS GIR LEITEIROS



Toda raça, de qualquer espécie, tem suas linhagens básicas que fornecem o material genético sobre o qual se processa a seleção evolutiva. Cabe aos criadores saberem utilizar, com proveito, este material oriundo das melhores linhagens e dos acasalamentos entre essas.

O Gir Leiteiro é resultado da seleção efetuada desde a década de 30 por entidades governamentais (nos estados da Paraíba e Minas Gerais) e por criadores particulares (em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro), a partir do gado Gir originariamente importado da Índia em 1906, 1919, 1930, 1960 e 1962.

Estes criadores realizaram operações de recolhimento de muitos exemplares que se distinguiam pela habilidade leiteira, dispersos pelos rebanhos nacionais, formando suas linhagens de Gir Leiteiro.

Os trabalhos de seleção foram realizados à maneira de cada criador, cada um usando sua intuição, conhecimentos e experiências, com visão no mercado e procurando as características desejáveis para seu plantel, segundo interesses específicos e particulares. Praticavam baixa incorporação de genótipos de outros rebanhos no seu criatório porque não tinham informações consistentes que pudessem auxiliar nesta decisão de introdução de outros animais.

Com o tempo, as respostas à seleção ou cruzamentos entre suas próprias famílias formadas estavam produzindo resultados menos pronunciados em relação aos observados no início de seus trabalhos, como era de se esperar, uma vez que os rebanhos não eram – e não são – grandes o suficiente para manter variabilidade genética para características de produção. Surgiu assim a necessidade de conduzir um trabalho mais amplo que pudesse colocar à disposição de todo rebanho Gir opções de touros e matrizes dessas linhagens já existentes, identificando aqueles de qualidade superior.

Foi, então, instituído pela ABCGIL e Embrapa Gado de Leite, com apoio da ABCZ Criadores e Centrais de Inseminação, em 1985, o Programa Nacional de Melhoramento do Gir Leiteiro, visando proceder à avaliação genética das vacas e executar o teste de progênie dos touros. Esse trabalho viria complementar a primeira fase de seleção praticada em cada fazenda e efetuar um teste central com delineamento apropriado, para comparar, numa mesma base de avaliação, os touros de vários rebanhos, identificando aqueles superiores para produção de leite, com base no desempenho das filhas.

Desde 1993 a 2003, já foram liberados resultados de 11 grupos de touros contemporâneos testados, num total de 98 animais avaliados pela Capacidade Prevista de Transmissão (PTA). Os animais que se destacaram começaram a ser disseminados e utilizados pelos criadores, visando promover o melhoramento genético dos rebanhos através da introdução de novos genótipos, ampliando o leque de opções de linhagens de outros criadores, permitindo maior índice de acerto possível.

Analisando a genealogia dos 20 primeiros touros classificados nos 11 grupos de animais já avaliados pelo teste de progênie, podemos identificar alguns reprodutores que se repetem nos pedigrees, conforme apresentado na Tabela 1.


Tabela 1 - Relação dos 20 melhores touros avaliados pelo teste de progênie


Estes ascendentes, considerados os pilares do Gir Leiteiro, são:


ALAMBIQUE

Importado por Ravísio Lemos e Manoel de Oliveira Prata, comprado por Anésio Amaral, deixou diversas filhas, destacando entre elas, a vaca Noronha (filha de Gabarra importada), através de seu filho Bombaim (bisneto, pelo lado paterno, do touro importado Lobisomen), o qual foi adquirido por Gabriel Donato de Andrade de Continetino Jacinto da Silva. Filhos de Bombaim participaram efetivamente nas genealogias de outros plantéis de seleção leiteira.


GAIOLÃO

Nascido da importação de Francisco Ravísio Lemos, foi adquirido por João Batista de Figueiredo Costa para acasalamento com as suas vacas de fundação do rebanho de seleção leiteira, tendo marcada influência nos pedigrees dessa propriedade.


GANDHI

Importado por Francisco Ravísio Lemos e Manoel de Oliveira Prata, comprado por Otávio Ariani Machado. Surgiram duas linhagens, Bey e White. Esse último touro, filho da vaca importada Serena OM, foi adquirido por Evaristo Soares de Paula e Sílvio de Almeida. Tinha pelagem branca e não foi aceito para registro por ter algumas manchas de despigmentação. Deixou mais de 1.000 filhos e criou uma linhagem dentro do Gir , denominada ‘Gado de Curvelo’. Filhos de White (White II, Vate, CA Curvelo), sobressaíram nos plantéis de Gir Leiteiro e foram utilizados quando da formação desses rebanhos.


HINDOSTAN

Importado por Torres Homem Rodrigues da Cunha, vendido para Francisco Figueiredo Barreto e posteriormente à Rubens Resende Peres, onde aparece nos pedigrees desses importantes rebanhos como pai de touros e vacas leiteiras que se destacaram pela alta produtividade.


KRISHNA

Importado por Celso Garcia Cid, despontou como a grande alternativa para o Gir brasileiro, gerando a linhagem dos ‘Krishnas’, principalmente quando acasalado com a vaca Virbay III importada, dando origem ao KS Virbay DC, o qual foi adquirido por Gabriel Donato de Andrade quando da formação de seu rebanho leiteiro, deixando importantes descendentes. Outro filho de KS Virbay DC, foi cedido à Rubens Resende Peres, contribuindo para formação novas famílias.


LOBISOMEN

Importado por Francisco Ravísio Lemos e Manoel de Oliveira Prata, foi adquirido por Torres Homem Rodrigues da Cunha. Ganhou notoriedade pelo filho Besouro, de José Jorge Penna (filho de Girinha importada). Esteve com diversos criadores de Gir e deixou numerosa descendência. Acasalado com a vaca França, nasceu Soberano, campeão em 1942, em Uberaba, quando de Antônio Alves da Rocha. O melhor produto de Soberano foi Bombaim, adquirido por Continentino Jacinto da Silva, filho de Noronha (que é filha de Alambique e Gabarra, importados). Bombaim foi campeão em Franca, em 1953, como também em Barretos e São Paulo, em 1954. Participou da formação dos rebanhos pioneiros na seleção leiteira da raça Gir.


NAIDU

Importado por Celso Garcia Cid, Torres Homem Rodrigues da Cunha, Rubens de Carvalho e Jacinto Honório da Silva, foi adquirido por João Batista Figueiredo, deixando descendência de expressiva produção leiteira nesse rebanho e cujos descendentes (CA Cachimbo, CA Prelúdio, CA Hábil) foram base de formação de outros plantéis leiteiros.


RAJÁ

Importado por Virmondes Martins Borges e comprado por Antenor Machado Azevedo. Esse touro é tido como o primeiro de pelagem branca da raça Gir. Acasalado com Mulata (importada por Cacildo Arantes), nasceu Rajasinho, que acasalado com a vaca de João Rodrigues da Cunha Borges, de nome Amarela (filha de Retinta, importada também por Cacildo Arantes), produziu o genearca Maxixe, que deixou muitos descendentes e é considerado a base da linhagem Rajá. Destacam, entre esses descendentes: Astuto, Demenso e Maxixe II, servindo vários plantéis e influenciando o Gir paulista e rebanhos de seleção do Gir Leiteiro.


VIJAYA

Importado por Celso Garcia Cid e adquirido posteriormente por João Batista de Figueiredo, visando cruzamento com as vacas filhas de Naidu, deixou excelente linhagem. Outros criatórios de Gir Leiteiro fizeram uso de descendentes desse touro para formar novas famílias.


As linhagens do Gir selecionado para leite apresentam ascendentes comuns, que formaram suas principais raízes e foram responsáveis pela origem do Gir Leiteiro brasileiro. Estes 20 reprodutores já tinham importância em seus criatórios e com a comprovação técnica da superioridade genética, referendada pelo teste de progênie, verificamos que esses têm ascendência em touros indianos importados, que formaram os principais criatórios do Gir Leiteiro nacional.


Outras linhagens, provavelmente, poderiam ter surgido e outros reprodutores poderiam ter se destacado, se não tivesse havido um processo seletivo antagônico à produção de leite nos rebanhos de Gir que praticavam melhoramento visando à produção de carne. Nesses rebanhos, muitas vacas de boa produção devem ter sido eliminadas por serem consideradas ‘descarnadas’, terem úberes grandes e porque o excesso de leite dificultava a criação dos bezerros e exigia a presença de vaqueiro.



Ivan Ledic - Médico Veterinário, D.Sc., Pesquisador Embrapa Gado de Leite, Diretor Técnico ABCGILCaixa Postal 351, 38001-970, Uberaba, MG – Email: ivanledic@epamiguberaba.com.br







André Rabelo Fernandes -Graduando em Zootecnia, Bolsista FAPEMIG, Técnico ABCGIL Av. Edílson Lamartine Mendes 215, CEP:38.045-000 - Email: dep.técnico@girleiteiro.org.br






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Um comentário:

SEJ disse...

Já tinha conhecimento desse trabalho a algum tempo.
Muito bom que também seja exposto aqui.
Completa bem o artigo sobre endogamia postado recentemente.
CA Everest por exemplo na linha alta - CA Preludio apresenta Naidu duas vezes.
Alias, na minha opinião Naidu com poucos filhos na sua descendência mostra toda a sua "força" leiteira, junto com Krishna.
Tivemos um touro com Naidu na linhagem Baixa e Bombaim na linha alta - SC Fígaro Baden (na década de 70, filho de BADEN) que deixou filhas extremamente leiteiras. Pena que nosso rebanho era cruzado e ele não deixou filhas registradas.